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POR UMA MÍDIA RESPONSÁVEL E NÃO-DISCRIMINATÓRIA - CARTA ABERTA AO COLUNISTA HENRIQUE GOLDMAN E À REVISTA TRIP
Data: 14/10/2008



Às Organizações, Redes, Entidades e Movimentos Sociais:
POR UMA MÍDIA RESPONSÁVEL E NÃO-DISCRIMINATÓRIA
CARTA ABERTA AO COLUNISTA HENRIQUE GOLDMAN E À REVISTA TRIP
Em função do teor discriminatório e violador aos direitos humanos
constante na "Carta aberta para Luisa", de autoria de Henrique
Goldman, publicada na Edição 170 da Revistra TRIP, 29.09.2008, e
disponível na web:
http://revistatrip.uol.com.br/coluna/conteudo.php?i=25613, em que o
referido colunista "pede desculpas públicas à empregada da família com
quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos", convidamos
àquelas organizações, redes, entidades e movimentos sociais que assim
o desejem, a se unirem em uma manifestação de repúdio e indignação,
bem como pedido de retratação pública, divulgando e assinando até
esta quinta feira (16/10/2008), a Petição Online que se encontra no
endereço http://www.PetitionOnline.com/mulheres/petition.html
A Carta Aberta ao colunista Goldman e à Revista TRIP - POR UMA MÍDIA
RESPONSÁVEL E NÃO-DISCRIMINATÓRIA - deverá será enviada nesta
sexta-feira (17/10/2008) a ambos somente com a assinatura das
organizações, redes, entidades e movimentos sociais, pois solicitamos
que a mesma seja publicada na próxima edição da Revista. Entendemos,
também, que a título individual várias pessoas desejem assiná-la, mas
esperamos a compreensão de todas/os pelo fato de que o encaminhamento
será feito com as assinaturas institucionais para tentar viabilizar
uma "possível" publicação na revista e por uma questão de
posicionamento político da sociedade civil organizada também.
Assinaturas individuais, por suposto, seguirão constando.
De qualquer forma, a petição encontra-se online, nos termos do texto abaixo.
Solicitamos sua adesão e divulgação para coletarmos o máximo de
assinaturas institucionais.
Por favor, assine até 16/10/2008, quinta-feira o nome da sua
organização, rede, entidade, movimento etc., na petição em
http://www.PetitionOnline.com/mulheres/petition.html e divulge !!!

____________________

Carta aberta:

POR UMA MÍDIA RESPONSÁVEL E NÃO-DISCRIMINATÓRIA
CARTA ABERTA AO COLUNISTA HENRIQUE GOLDMAN E À REVISTA TRIP

As organizações e redes dos movimentos feministas, de mulheres, de
comunicação e de direitos humanos subscritas manifestam seu total
REPÚDIO e INDIGNAÇÃO diante do desrespeito e das violações de direitos
praticadas pelo colunista Henrique Goldman e pela Revista TRIP com a
publicação do texto "Carta aberta para Luisa" (Edição impressa #170,
de 29.09.2008, também disponível no endereço eletrônico
http://revistatrip.uol.com.br/coluna/conteudo.php?i=25613), em que o
referido colunista "pede desculpas públicas à empregada da família com
quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos".
Para quem imaginava um "pedido de desculpas públicas", o teor da
coluna viola os princípios da normativa nacional e internacional de
direitos humanos, especialmente o respeito à dignidade da pessoa
humana, bem como qualquer parâmetro ético na comunicação. Reproduz na
mídia padrões de conduta baseados na premissa da superioridade
masculina e nos papéis estereotipados para o homem e a mulher, que
legitimam e exacerbam a discriminação e violência contra todas
mulheres, principalmentes contra as pobres e negras, como são em sua
grande maioria as empregadas das famílias brasileiras.
Sem qualquer avaliação ou responsabilidade no antecedente e no
conseqüente, em relação ao que se publica e como se publica – ainda
mais em se tratando de violência sexual contra as empregadas
domésticas, o que envolve a discriminação e violência de gênero,
classe e étnico-racial –, a Revista TRIP e o colunista, somente em
10.10.2008, e após um turbilhão de manifestações indignadas,
justificam na internet tratar-se "de um texto de ficção", pedem
desculpas "por não ter apontado o caráter ficcional do texto" e dizem
considerar "inaceitável qualquer forma de assédio ou violência
sexual".
Inobstante tal "justificativa", revistas como a TRIP e quaisquer
outros meios de comunicação não podem seguir se furtando às suas
responsabilidades sociais com o teor do que veiculam, pois são
conhecedoras do poder que têm, da polêmica que geram e, com isso, do
quanto mais vendem e ganham às custas da humilhação da dignidade
alheia, diga-se, em especial, das mulheres. Isso beiraria à leviandade
e má-fé.
A "Carta aberta para Luisa", fictícia ou não, evidencia:
1. a banalização da violência contra as mulheres;
2. a utilização da violência contra as mulheres como produto, para
auferir lucro;
3. a compreensão da violência sexual contra as mulheres como uma ação
de menor dano, a ponto de ser tratada com deboche pelo autor.
A coluna de Goldman não apenas evidencia a banalidade da violência
contra a mulher mas o quanto o seu autor não parece reconhecer que a
(es)história contada configura o "concurso de pessoas", na prática do
crime de estupro, previsto no art.213 do Código Penal, cuja pena varia
de seis a dez anos de reclusão, e a trata de forma rasteira e leviana.
"Transar contra a vontade dela" nada mais é do que um eufemismo para o
conhecido verbo "estuprar". Acrescente-se ao caso mais uma
circunstância agravante, prevista no artigo 61, "f" do nosso Código
Penal: "com abuso de autoridade ou prevalecendo-se de relações
domésticas, de coabitação ou de hospitalidade".
Ademais, esperar que "Luisa" possa "rir do que aconteceu" mostra o
quanto essas práticas violentas ainda são tratadas como piadas no
Brasil – apesar da conquista da Lei Maria da Penha. O mais provável é
que nenhuma "Luisa", e nenhuma outra mulher que sofre uma violência
dessa natureza, jamais conseguirá rir do que aconteceu e esse trauma a
acompanhará por toda a vida. Certamente, ela se lembra muito bem do
autor da violência.
O autor, além de caracterizar um "patético pedido de desculpas" em uma
"nova violação de direitos", sequer foi capaz de ir além, deixando
alguns questionamentos sobre o final dessa história. "Luisa" continuou
trabalhando na casa? Seria obrigada a ver o seu patrão/agressor todos
os dias? Ela foi demitida por alguma razão não dita? Ela engravidou do
Henrique ou de seu amigo Adalberto? Será que teve que fazer um aborto?
Pior do que a hipocrisia do texto é saber que a Revista TRIP
compartilha das mesmas opiniões, não só ao publicá-lo mas ao
apresentar o colunista como aquele que se tornou "mais jeitosinho com
as mulheres ao longo dos anos". Repugnante, lamentável e igualmente
violento. E ao justificar-se como texto ficcional, retiram essa
qualificação. Os danos, no entanto, já foram causados. Agora cabe
repará-los.
Por isso, as organizações, entidades e movimentos sociais
abaixo-assinados solicitam a publicação desta Carta Aberta na próxima
edição de TRIP, entendendo que cabe a essa revista e ao colunista
Henrique Goldman uma RETRATAÇÃO PÚBLICA formal, não somente às
"Luísas" que representam as mulheres que sofrem ou sofreram alguma
forma de violência sexual mas a toda a sociedade brasileira que não
compactua com esse tipo de mídia veiculada e não tolera esses atos
criminosos, de discriminação e violência de gênero, classe e
étnico-racial, produzidos e reproduzidos cotidianamente.
Que a violência e a violação de direitos humanos sejam reconhecidas e
assumidas. Não se trata de uma "bad trip" ou de um texto infeliz mal
interpretado; trata-se de misoginia, machismo, sexismo, racismo,
classismo, discriminação, falta de compreensão das violências
estruturais e seus mecanismos de reprodução, ofensa à dignidade
humana, e não só de uma pessoa. Isso afeta e molda a cultura de toda
uma sociedade. Sociedade esta que queremos transformar, para que seja
mais igualitária, justa e democrática.
 
Fonte: http://www.petitiononline.com/mulheres/petition.html
 
 
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